sábado, 20 de março de 2010

Casa Grande do Carajazinho ou Esquina dos Kruel


 Os artigos veiculados neste blog podem ser utilizados pelos interessados, desde que citada a fonte: MOUSQUER, Zélce Darclé. (Inclua o título e data da postagem) in http://www.familia-kruel.com.br, nos termos da Lei nº 9.610/98.


CASA GRANDE DO CARAJAZINHO OU ESQUINA DOS KRUEL

            CARAJAZINHO, LOCALIZADO NO 3º DISTRITO DE SANTO ÂNGELO/RS    

O local que ficou conhecido como “Venda Velha”, foi um armazém, situado num ponto estratégico de passagem das tropas de gado vacum e muar em direção à grande feira de Sorocaba. Tratava-se de um belíssimo exemplar da arquitetura rural sul-rio-grandense voltada para o comércio, que foi demolido, privando-nos da oportunidade de contemplar e conhecer mais sobre a arquitetura rural missioneira. A residência foi construida por Frederico Kruel (casado com Generosa Quaresma) e habitada pela sua família até em torno de 1888. Além de servir como casa de moradia para a família, ali existia, também, o armazém a que se refere Lallemant. A leitura dos inventários nos permite avaliar a diversidade de produtos oferecidos pela família Kruel em sua casa de comércio. Encontramos registros de gêneros alimentícios variados, condimentos, tecidos, calçados e aviamentos. Em 1891, Frederico Kruel declara que:... por muitos anos esteve estabelecido com casa de negócio de fazendas no logar denominado Carajasinho, terceiro districto deste termo, retirando-se desse logar para esta villa (de Santo Ângelo) em janeiro de 1888. Após esta data, Frederico Kruel vende a propriedade para sua cunhada Izabel Frederica Kruel, viúva de seu irmão João Ernesto Kruel.




Foto datada de 1885, cedida por Ubirajara Kruel/Santo Ângelo


Casa Grande do Carajazinho - residência dos Kruel A foto pertence ao acervo Júlio Nicolau Curtis - FAU - UniRitter
Vista Frontal da residência A foto pertence ao Acervo Júlio Nicolau Curtis - FAU - UniRitter

Pátio central da residência , onde vemos os compartimentos laterais que abrigavam os depósitos e as dependências de cativos e empregados. Provavelmente, o pátio interno era pavimentado, sendo comum a existência de um poço para captação da água potável. A residência tinha a forma de U, sendo o pátio interno uma influência espanhola nas construções. A foto pertence ao Acervo Júlio Nicolau Curtis - FAU - UniRitter

J.N.B.de CURTIS, em matéria publicada no Jornal Correio do Povo de 10.8.1971, sugere à Comissão Especial para Estudo e Proteção do Patrimônio Cultural do Estado do RS, a desapropriação do prédio da “Casa Grande do Carajazinho”. Lamentavelmente, sua sugestão não foi considerada e a construção acabou sendo demolida. Hoje ali se encontra uma residência recentemente construida. Em seu artigo o autor reproduz trechos da obra do viajente alemão Avé- Lallemant , o qual refere-se a Frederico Kruel casado com Generosa Lemes Quaresma.  

transcrevemos, abaixo,  parte da matéria  publicada.

Aqui, Curtis reproduz as palavras de Lallemant.
 "[...] Perdida num ermo do Município de Entre-Ijuis/RS, mais precisamente no distrito de Carajazinho,constitui-se a edificação em precioso remanescente de arquitetura do oitocentismo rio-grandense. E, além disso, parece ser um documento vivo do que foi o maior empório comercial da região. Os comentários do seu atual morador, de que o prédio servia, de longa data, como apoio para o abastecimento da região, coincidem com as informações de Avé-Lallemant, abaixo transcritas,acerca de um belo armazém existente no local.[...] [...] o proprietário do belo armazém, era outro alemão, também de Oberstein, Frederico Kruel, homem modesto e amável, de muito boa educação. Apenas há quatro anos, morava em Carajazinho e já fizera bonita fortuna. Desejei-lhe mais felicidade nos negócios e continuei só, com o “Spahi”, pois meu companheiro de viagem, brasileiro, ficou com o Senhor Frederico no Carajazinho".

Seu interesse será, então, “artístico, histórico, paisagístico, científico”. Há, próximo ao prédio, inclusive, uma palmeira com o caule tripartido, a qual ainda existe, já comentada em reportagem da antiga revista “O Cruzeiro”.

Sob o enfoque sociológico, é curiosa e saborosa a descrição que dela faz o viajante alemão (novamente Curtis reproduz as palavras de Lallemant);

[...] Chegamos a Carajazinho,”pequeno carajá”, isto é, um arbusto, onde há, à beira da estrada, uma venda e um armazém de mercadorias; um pouco fora da estrada, uma estância; e é isso todo o lugarejo. No armazém, onde me apeei por um momento, reinava muito boa ordem; havia ali, para vender, tudo o que é necessário para a vida, mesmo a vida do campo, desde o sapato parisiense e o guarda-sol de seda até a colossal espora de ferro do peão e uma multiplicidade de coisas que, pelo seu alto preço, não se compreende que se encontrem compradores. E, todavia encontram-nos sem esforço. No sapato envernizado parisiense, mete-se amanhã ou depois, o pé de uma mulata, de uma índia ou de uma imigrante alemã e no passeio a cavalo o guarda-sol de seda azul furta-cor protege tanto os cabelos louros de uma européia como a cabeça de uma negra africana ou de uma guarani sul-americana".

O prédio, se não é o descrito por Avé-Lallemant, aquele a que nos referimos como “Casa grande do Carajazinho”, ilustrado pelas fotos, é uma ampla massa edificada, aberta na sua frontaria por dez envasaduras, incluídos dois arcos que dão acessso aos avarandados laterais. A planta baixa organiza o característico partido em U, cujos tramos envolventes abraçam um recatado pátio lateral e os avarandados internos a ele adjacentes, de reduzidos pés - direitos, são agenciados pelos prolongamentos dos enormes panos dos telhados. Telhados que constituem a nota dominante da composição olhada por esse ângulo e que regalam nossa vista, através do expressivo sabor artesanal que encerram.

Aí está um soberbo exemplar de arquitetura rural que o Rio Grande do Sul não deve perder. Que o cadastre, desaproprie, restaure - enquanto ainda restaurável - e que o destine a uma função cultural. Seu partido, suas dimensões, sua localização em área que viu desenvolverem tanto a agricultura quanto o pastoreio, o vocacionam para um museu agropastoril, cuja visitação é facilmente inserível no roteiro das Missões."

Uma outra descrição (possivelmente da mesma moradia) encontra-se no Inventário de Isabel Frederica Hoffmeister Kruel, esposa de João Ernesto Kruel. "...Um estabelecimento de moradia sito em Carajazinho, 3º distrito d’este município, constante de casa de material, forrada e assoalhada, com 120 palmos de frente e 80 de fundos, cozinha, galpões, casas de depósito, curraes, cercado com arvoredo e um potreiro de pastagens.”

Em TRINDADE, 1992, p.93, encontramos a descrição:

“Em 1856, quando o alemão Robert Avé-Lallemant passou pelo distrito de Carajazinho, a caminho de São Miguel, havia ali, na beira da estrada “uma venda e um armazém de mercadorias; um pouco fora da estrada uma estância”. Um belo armazém, diz ele, onde havia de tudo, “desde o sapato parisiense e o guarda-sol de seda até a colossal espora de ferro do peão e uma multiplicidade de coisas que, pelo seu alto preço, não se compreende que encontrem compradores”. O proprietário do “belo armazém” era um alemão de Oberstein de nome Frederico Kruel que, morando ali há quatro anos apenas já fizera “bonita fortuna”. A família Kruel vendeu recentemente a magnífica e decaída estância, já em desuso há mais de quinze anos. Fica na estrada que vai de Santo Ângelo/RS a Santiago do Boqueirão/RS, na encruzilhada do desvio para Tupanciretã/RS e Cruz Alta/RS. O local hoje conhecido como “Venda Velha” era um ponto estratégico para comércio. Por ali passava o tráfego de tropas e boiadas das estâncias localizadas do rio Piratini para baixo, até as coxilhas de Uruguaiana/RS e Alegrete/RS, em direção ao “caminho dos paulistas” – a Estrada de Palmas. E também o tráfego comercial entre as antigas Missões e os núcleos do rio Jacuí, ponto de ligação com a distante costa marítima.”

A referida estância é citada, também, na poesia do defensor público Waldemar Menchik Júnior, da comarca de Santo Ângelo http://defensorenirmadruga.blogspot.com/2008/10/poesia.html, que referindo-se a Frederico Kruel e Generosa Quaresma, cita a “Venda Velha” na poesia que fez para homenagear os Oficiais de Justiça do RS.
O autor retrata, no poema, a primeira diligência da comarca, realizada por “Domingos”, o primeiro oficial de Justiça de Santo Ângelo. Esta diligência, histórica, foi realizada no dia 12 de outubro de 1875, da sede da comarca até a Fazenda Triunfo, que hoje se localiza no município de São Miguel das Missões.
Domingos, nessa diligência, saiu de Santo Ângelo, passando pela atual sede do município de Entre-Ijuís, tendo almoçado no comércio de Frederico Kruel, que se localizava no atual distrito de Carajazinho, para, ao final do dia, chegar ao destino final, a Fazenda Triunfo. 

...................

Depois de fumar um “palheiro”
Domingos monta de novo,
Pois a parada é só um “retovo”
Para prosseguir na jornada,

E, assim, sem dizer nada,
Dá de rédeas em seu cavalo
E, como se fosse, num estalo,
Vê, ao longe, um “bolicho de campanha”

Onde se vendia de tudo, até canha,
Remédio, farinha e algum “regalo”.
Aprochegando-se de tal comércio
Vê, chimarreando, o seu dono

Frederico, homem de rude entono
Que, ao lado de Dona Generosa,
Mulher buena e atenciosa
Fizeram daquela "tenda"

Uma conhecida e “velha venda”,
Central de abastecimento
Da família Kruel, o “sustento”,
E para a região, uma “legenda”.

Em virtude da hospitalidade
Sequer o charque usou;
Disso, Ele não precisou,
Já que lauto almoço fez.

E, então, esse “freguês”
Da "velha venda" de antanho,
Com uma ´ambrosia´ de “acompanho”,
Resolveu dar uma sesteada,
Espichando-se na pelegada
Para as quais não era "estranho".
...........


Residência da Família Kruel no lugar denominado Carajazinho, 3º distrito de Santo Ângelo/RS, conhecida como "Casa Grande do Carajazinho". Foto de 1908, época em que a residência já não era habitada por Frederico Kruel, seu construtor, mas pela família de seu irmão João Ernesto, que já era falecido.
A foto acima mostra a ocasião em que a viúva recebe a visita de Júlio de Castilhos, que encontrava-se em Santo Ângelo. Júlio de Castilhos aparece de terno escuro, em pé sobre a charrete. À sua frente, encontra-se o Dr. Ulysses Rodrigues e sua esposa Isabel (Belinha).
A foto faz parte do acervo do Arquivo Histórico Municipal Augusto César Pereira dos Santos, Santo Ângelo/RS.


Ruínas da residência dos Kruel, (mesma residência da foto anterior) nesta época conhecida como “Venda Velha”, expressão usada pelas pessoas ao se referirem às ruínas do antigo armazém. Foto disponível em TRINDADE, 1992, p. 93.




Foto da lateral externa da residência, disponível em Trindade, 1992, p. 93.


Lateral interna da residência, onde vemos os depósitos e senzalas. Foto cedida por Erica Liebelt Hauck/2006.


Fontes:


Acervo Júlio Nicolau Curtis FAU - UniRitter
Jornal Correio do Povo de 10 agosto 1971, p.15.
TRINDADE, Jaelson Bitran. Tropeiros. São Paulo, Editoração Publicações e Comunicações Ltda. 1992.
LALLEMANT, Robert Avé. A Viagem pela província do RS- 1858. Itatiaia, São Paulo: Ed.da Universidade de São Paulo, 1980.

6 comentários:

  1. Belo artigo prezada Zélce.

    E que rico ambiente virtual, do qual tive conhecimento através do meu amigo Waldemar Menchik Júnior(autor da poesia A Primeira Diligência).

    Um grande abraço.

    Adalberto Bairros Kruel, de Santo Ângelo, capital dos Sete Povos.

    email: adalkruel@hotmail.com

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  2. Adalberto

    É sempre um prazer conhecer um Kruel da minha terra, Santo Ângelo.
    Desejo que as informações aqui contidas, te sejam bastante úteis.
    Transmita meu abraço e meu agradecimento ao talentoso Waldemar. Eu não poderia deixar de citar, neste trabalho, a oportuna manifestação de cultura e beleza que ele nos proporcionou com seu poema.

    um grande abraço
    Zélce

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  3. Zélce,é um prazer ter mais conhecimento sobre minha familia,sou da mais "NOVA GERAÇÃO DOS KRUEL"mas já estou podendo entender melhor sobre meus antepassados.Pois como você escreveu na 1º parte,Frederico Kruel,foi casado com Generosa Quaresma em 1888,e depois de quase 123 anos,minha mãe Ângela Maria Kruel,é casada com Deomar Quaresma.Pois é,plena conhecidencia!

    ABRAÇOS,foi um prazer conhecer mais sobre minha familia.Tenho 11 anos,sou subrinho e afiliado do adalberto.

    Me mande convite no msn,alessandro.kruel@hotmail.com

    BEIJOS ALESSANDRO KRUEL QUARESMA

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  4. Olá Alessandro

    Adorei receber sua mensagem.

    Vc é um menino bastante esperto ao fazer a relação Kruel/Quaresma.

    Seu pai tem alguma outra informação sobre a família da Generosa Quaresma?

    beijão

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  5. Ele acha q tanto como frederico kruel é bizavo do meu vo,generosa quaresma seja bizavó do meu vo paterno!

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