sábado, 20 de março de 2010

A Família Kruel nas Missões


Os artigos veiculados neste blog podem ser utilizados pelos interessados, desde que citada a fonte: MOUSQUER, Zélce Darclé. (Inclua o título e data da postagem) in http://www.familia-kruel.com.br, nos termos da Lei nº 9.610/98.

A FAMÍLIA KRUEL NAS MISSÕES


É difícil precisar a data em que os filhos do imigrante Carl L.W.Kruel transferem-se para a região das Missões. O que podemos afirmar, é que a família Kruel não estava entre as 72 pessoas que, em novembro de 1824, foram enviadas para São João das Missões, diretamente de Porto Alegre, numa tentativa de “repovoamento” da antiga zona jesuítica das Missões.

O Pernambucano Hemetério V. da Silveira, 1979, p. 183, que visitou as Missões em 1855, aqui permanecendo em torno de doze anos, comete um engano ao informar que Ernesto Kruel, filho do imigrante Carl L. W. Kruel, teria sido encaminhado para as Missões em 1824. Como vimos, a família Kruel entra no Brasil em 1827.

“...Em 1824, o governo mandou, para habitar esse povo, várias famílias dos primeiros colonos alemães introduzidos no Rio grande do Sul. Esses, ou porque viam-se obrigados a morar na mesma redução com a raça indolente dos índios, ou porque precisassem um quilômetro de viagem para ir buscar, ou porque não se lhes distribuísse terras de plantação, em maior distância super abundantes, abandonaram a redução de São João. Ficaram apenas residindo Ernesto Kruel, cujos filhos enriqueceram no comércio,Carlos Hoslsbach que estabeleceu-se em São João Merin, Tristão Frederico Schmitt, que com seus filhos foi residir nas proximidades de São Miguel e João Bulgsdorph entre São João e São Miguel. Esses poucos colonos souberam honrar as tradições de sua operosa raça, mantendo em seus lares até seus netos e bisnetos sua língua, costumes e vida laboriosa.” (SILVEIRA, 1979, p.183).

Amstad,1999, p.76 ...deve ter sido também por essa época (1828) que o governo imperial fez a experiência de transplante de algumas famílias de alemães para as Sete Missões, como já registramos mais acima. As famílias Kruel, Holsbach, Schmidt, Balgsdorf foram alojadas no assentamento principal de São Miguel. Seus descendentes moram ainda hoje na região. Não poucos, porém, trocaram o nome alemão por um luso-brasileiro.
Parece repetir-se o engano, pois neste período os registros dos filhos do casal de imigrantes, são encontrados na região colonial de São Leopoldo. O registro mais antigo encontrado na Cúria de Santo Ângelo/RS, refere-se ao ano de 1854, quando nasce Belmira Kruel, terceira filha de Frederico Kruel e Generosa Lemos Quaresma, neta do casal de imigrantes.
Sabemos que Cristiano e Ernesto, os dois primeiros filhos deste casal (Frederico e Generosa), nasceram em Santa Maria/RS.
Da mesma forma, os primeiros filhos de João Ernesto Kruel (filho do imigrante Carl) e Elisabeth Frederica Hoffmeister, nascidos em Santo Ângelo, foram Germano em 1863 e Júlia em 1864, tendo seus os filhos anteriores, nascido em Santa Maria.

Isto não invalida a hipótese de que Frederico Kruel e João Ernesto Kruel, já estivessem assentados em Santo Ângelo, em anos anteriores, tendo seus filhos nascido em Santa Maria.

A citação de Lallemant referindo-se a Friedrich Kruel [...] o proprietário do belo armazém, era outro alemão, também de Oberstein, Frederico Kruel, homem modesto e amável, de muito boa educação. Apenas há quatro anos, morava em Carajazinho e já fizera bonita fortuna [...] coincide com nossas pesquisas, indicando que Frederico Kruel (filho do Imigrante Carl) e Generosa Quaresma, dirigiram-se para as Missões, em torno de 1854 e tenham sido os pioneiros, na família Kruel, a buscarem esta região, apostando no comércio, e no aproveitamento da terra, seguidos pelo irmão João Ernesto Kruel e sua esposa Isabel Hoffmeister.

O alemão Robert Ave-Lallemant em 1856 percorreu a província gaúcha, atravessando os Sete Povos, até Uruguaiana e de volta por São Gabriel até Cachoeira. A caminho das Missões, passou pela fazenda dos Kruel.

Os Kruel irão conhecer uma região de tropeiros paulistas, lagunenses, goianos, alemães, pequenos ou grandes estancieiros, com seus peões, agregados e escravos, além de uma população indígena e mestiça errante. Santo Ângelo não era ainda um povoado, o que se via eram estâncias e pequenas propriedades dispersas na imensidão.

Santo Ângelo, nesta época, era o 5º distrito do município de Cruz Alta, denominado Capela de Santo Ângelo. Irá passar à condição de Freguesia e Paróquia, somente em 14/1/1857, compreendendo o distrito de São Miguel. Passando à condição de vila e sede de município em 22/3/1873. Sendo o município instalado em 31/12/1874 e elevado à categoria de cidade, em 31/3/1938.

A abundância de terras nas Missões e as promissoras possibilidades de investir no ramo do comércio juntamente com a lucrativa atividade da criação de gado, foi o que atraiu os irmãos Kruel para a região.

[...] Avé -Lallemant na sua viagem em 1858 para as Sete Missões até Uruguaiana e de volta por São Gabriel até Cachoeira, encontrou em toda parte alemães que, normalmente criavam gado ao lado de uma casa de comércio ou de uma oficina. Um exemplo foi Friedrich Kruel perto de São Miguel, ao qual já então classifica de rico. (AMSTADT, 1999, p. 235)


Fontes:

SILVEIRA, Hemetério José Veloso da. As Missões Orientais e seus antigos domínios. Porto Alegre: Companhia União de Seguros Gerais, 1979.
AMSTADT, Theodor. Cem anos de Gemanidade no Rio Grande do Sul - 1824-1924. Tradução de Arthur Blasio Rambo.São Leopoldo: Ed. Unisinos,1999.
LALLEMANT, Robert Avé. A Viagem pela província do RS- 1858. Itatiaia, São Paulo: Ed.da Universidade de São Paulo, 1980.

Casa Grande do Carajazinho ou Esquina dos Kruel


 Os artigos veiculados neste blog podem ser utilizados pelos interessados, desde que citada a fonte: MOUSQUER, Zélce Darclé. (Inclua o título e data da postagem) in http://www.familia-kruel.com.br, nos termos da Lei nº 9.610/98.

CASA GRANDE DO CARAJAZINHO OU ESQUINA DOS KRUEL

              ______      CARAJAZINHO, 3º DISTRITO DE SANTO ÂNGELO/RS      ______

O local que ficou conhecido como “Venda Velha”, foi um armazém, situado num ponto estratégico de passagem das tropas de gado vacum e muar em direção à grande feira de Sorocaba. Tratava-se de um belíssimo exemplar da arquitetura rural sul-rio-grandense voltada para o comércio, que foi demolido, privando-nos da oportunidade de contemplar e conhecer mais sobre a arquitetura rural missioneira. A residência foi construida por Frederico Kruel (casado com Generosa Quaresma) e habitada pela sua família até em torno de 1888. Além de servir como casa de moradia para a família, ali existia, também, o armazém a que se refere Lallemant. A leitura dos inventários nos permite avaliar a diversidade de produtos oferecidos pela família Kruel em sua casa de comércio. Encontramos registros de gêneros alimentícios variados, condimentos, tecidos, calçados e aviamentos. Em 1891, Frederico Kruel declara que:... por muitos anos esteve estabelecido com casa de negócio de fazendas no logar denominado Carajasinho, terceiro districto deste termo, retirando-se desse logar para esta villa (de Santo Ângelo) em janeiro de 1888. Após esta data, Frederico Kruel vende a propriedade para sua cunhada Izabel Frederica Kruel, viúva de seu irmão João Ernesto Kruel.




Foto datada de 1885, cedida por Ubirajara Kruel/Santo Ângelo


Casa Grande do Carajazinho - residência dos Kruel A foto pertence ao acervo Júlio Nicolau Curtis - FAU - UniRitter
Vista Frontal da residência A foto pertence ao Acervo Júlio Nicolau Curtis - FAU - UniRitter

Pátio central da residência , onde vemos os compartimentos laterais que abrigavam os depósitos e as dependências de cativos e empregados. Provavelmente, o pátio interno era pavimentado, sendo comum a existência de um poço para captação da água potável. A residência tinha a forma de U, sendo o pátio interno uma influência espanhola nas construções. A foto pertence ao Acervo Júlio Nicolau Curtis - FAU - UniRitter

J.N.B.de CURTIS, em matéria publicada no Jornal Correio do Povo de 10.8.1971, sugere à Comissão Especial para Estudo e Proteção do Patrimônio Cultural do Estado do RS, a desapropriação do prédio da “Casa Grande do Carajazinho”.


Lamentavelmente, sua sugestão não foi considerada e a construção acabou sendo demolida. Hoje ali se encontra uma residência recentemente construida. Em seu artigo o autor reproduz trechos da obra do viajente alemão Avé- Lallemant , o qual refere-se a Frederico Kruel casado com Generosa Lemes Quaresma.
Escreve Curtis: "[...] Perdida num ermo do Município de Entre-Ijuis/RS, mais precisamente no distrito de Carajazinho,constitui-se a edificação em precioso remanescente de arquitetura do oitocentismo rio-grandense. E, além disso, parece ser um documento vivo do que foi o maior empório comercial da região. Os comentários do seu atual morador, de que o prédio servia, de longa data, como apoio para o abastecimento da região, coincidem com as informações de Avé-Lallemant, abaixo transcritas,acerca de um belo armazém existente no local.[...] [...] o proprietário do belo armazém, era outro alemão, também de Oberstein, Frederico Kruel, homem modesto e amável, de muito boa educação. Apenas há quatro anos, morava em Carajazinho e já fizera bonita fortuna. Desejei-lhe mais felicidade nos negócios e continuei só, com o “Spahi”, pois meu companheiro de viagem, brasileiro, ficou com o Senhor Frederico no Carajazinho.


Seu interesse será, então, “artístico, histórico, paisagístico, científico”. Há, próximo ao prédio, inclusive, uma palmeira com o caule tripartido, a qual ainda existe, já comentada em reportagem da antiga revista “O Cruzeiro”.


Sob o enfoque sociológico, é curiosa e saborosa a descrição que dela faz o viajante alemão;

[...] Chegamos a Carajazinho,”pequeno carajá”, isto é, um arbusto, onde há, à beira da estrada, uma venda e um armazém de mercadorias; um pouco fora da estrada, uma estância; e é isso todo o lugarejo. No armazém, onde me apeei por um momento, reinava muito boa ordem; havia ali, para vender, tudo o que é necessário para a vida, mesmo a vida do campo, desde o sapato parisiense e o guarda-sol de seda até a colossal espora de ferro do peão e uma multiplicidade de coisas que, pelo seu alto preço, não se compreende que se encontrem compradores. E, todavia encontram-nos sem esforço. No sapato envernizado parisiense, mete-se amanhã ou depois, o pé de uma mulata, de uma índia ou de uma imigrante alemã e no passeio a cavalo o guarda-sol de seda azul furta-cor protege tanto os cabelos louros de uma européia como a cabeça de uma negra africana ou de uma guarani sul-americana.

O prédio, se não é o descrito por Avé-Lallemant, aquele a que nos referimos como “Casa grande do Carajazinho”, ilustrado pelas fotos, é uma ampla massa edificada, aberta na sua frontaria por dez envasaduras, incluídos dois arcos que dão acessso aos avarandados laterais. A planta baixa organiza o característico partido em U, cujos tramos envolventes abraçam um recatado pátio lateral e os avarandados internos a ele adjacentes, de reduzidos pés - direitos, são agenciados pelos prolongamentos dos enormes panos dos telhados. Telhados que constituem a nota dominante da composição olhada por esse ângulo e que regalam nossa vista, através do expressivo sabor artesanal que encerram.

Aí está um soberbo exemplar de arquitetura rural que o Rio Grande do Sul não deve perder. Que o cadastre, desaproprie, restaure - enquanto ainda restaurável - e que o destine a uma função cultural. Seu partido, suas dimensões, sua localização em área que viu desenvolverem tanto a agricultura quanto o pastoreio, o vocacionam para um museu agropastoril, cuja visitação é facilmente inserível no roteiro das Missões."

Uma outra descrição (possivelmente da mesma moradia) encontra-se no Inventário de Isabel Frederica Hoffmeister Kruel, esposa de João Ernesto Kruel. "...Um estabelecimento de moradia sito em Carajazinho, 3º distrito d’este município, constante de casa de material, forrada e assoalhada, com 120 palmos de frente e 80 de fundos, cozinha, galpões, casas de depósito, curraes, cercado com arvoredo e um potreiro de pastagens.”
Em TRINDADE, 1992, p.93, encontramos a descrição:

“Em 1856, quando o alemão Robert Avé-Lallemant passou pelo distrito de Carajazinho, a caminho de São Miguel, havia ali, na beira da estrada “uma venda e um armazém de mercadorias; um pouco fora da estrada uma estância”. Um belo armazém, diz ele, onde havia de tudo, “desde o sapato parisiense e o guarda-sol de seda até a colossal espora de ferro do peão e uma multiplicidade de coisas que, pelo seu alto preço, não se compreende que encontrem compradores”. O proprietário do “belo armazém” era um alemão de Oberstein de nome Frederico Kruel que, morando ali há quatro anos apenas já fizera “bonita fortuna”. A família Kruel vendeu recentemente a magnífica e decaída estância, já em desuso há mais de quinze anos. Fica na estrada que vai de Santo Ângelo/RS a Santiago do Boqueirão/RS, na encruzilhada do desvio para Tupanciretã/RS e Cruz Alta/RS. O local hoje conhecido como “Venda Velha” era um ponto estratégico para comércio. Por ali passava o tráfego de tropas e boiadas das estâncias localizadas do rio Piratini para baixo, até as coxilhas de Uruguaiana/RS e Alegrete/RS, em direção ao “caminho dos paulistas” – a Estrada de Palmas. E também o tráfego comercial entre as antigas Missões e os núcleos do rio Jacuí, ponto de ligação com a distante costa marítima.”

A referida estância é citada, também, na poesia do defensor público Waldemar Menchik Júnior, da comarca de Santo Ângelo http://defensorenirmadruga.blogspot.com/2008/10/poesia.html, que referindo-se a Frederico Kruel e Generosa Quaresma, cita a “Venda Velha” na poesia que fez para homenagear os Oficiais de Justiça do RS.
O autor retrata, no poema, a primeira diligência da comarca, realizada por “Domingos”, o primeiro oficial de Justiça de Santo Ângelo. Esta diligência, histórica, foi realizada no dia 12 de outubro de 1875, da sede da comarca até a Fazenda Triunfo, que hoje se localiza no município de São Miguel das Missões.
Domingos, nessa diligência, saiu de Santo Ângelo, passando pela atual sede do município de Entre-Ijuís, tendo almoçado no comércio de Frederico Kruel, que se localizava no atual distrito de Carajazinho, para, ao final do dia, chegar ao destino final, a Fazenda Triunfo. ..............

Depois de fumar um “palheiro”
Domingos monta de novo,
Pois a parada é só um “retovo”
Para prosseguir na jornada,

E, assim, sem dizer nada,
Dá de rédeas em seu cavalo
E, como se fosse, num estalo,
Vê, ao longe, um “bolicho de campanha”

Onde se vendia de tudo, até canha,
Remédio, farinha e algum “regalo”.
Aprochegando-se de tal comércio
Vê, chimarreando, o seu dono

Frederico, homem de rude entono
Que, ao lado de Dona Generosa,
Mulher buena e atenciosa
Fizeram daquela "tenda"

Uma conhecida e “velha venda”,
Central de abastecimento
Da família Kruel, o “sustento”,
E para a região, uma “legenda”.

Em virtude da hospitalidade
Sequer o charque usou;
Disso, Ele não precisou,
Já que lauto almoço fez.

E, então, esse “freguês”
Da "velha venda" de antanho,
Com uma ´ambrosia´ de “acompanho”,
Resolveu dar uma sesteada,
Espichando-se na pelegada
Para as quais não era "estranho".
...........


Residência da Família Kruel no lugar denominado Carajazinho, 3º distrito de Santo Ângelo/RS, conhecida como "Casa Grande do Carajazinho". Foto de 1908, época em que a residência já não era habitada por Frederico Kruel, seu construtor, mas pela família de seu irmão João Ernesto, que já era falecido. A foto mostra a ocasião em que a viúva recebe a visita de Júlio de Castilhos, que encontrava-se em Santo Ângelo. Júlio de Castilhos aparece de terno escuro, em pé sobre a charrete. À sua frente, encontra-se o Dr. Ulysses Rodrigues e sua esposa Isabel (Belinha). A foto faz parte do acervo do Arquivo Histórico Municipal Augusto César Pereira dos Santos, Santo Ângelo/RS.


Ruínas da residência dos Kruel, (mesma residência da foto anterior) nesta época conhecida como “Venda Velha”, expressão usada pelas pessoas ao se referirem às ruínas do antigo armazém. Foto disponível em TRINDADE, 1992, p. 93.




Foto da lateral externa da residência, disponível em Trindade, 1992, p. 93.


Lateral interna da residência, onde vemos os depósitos e senzalas. Foto cedida por Erica Liebelt Hauck/2006.


Fontes:


Acervo Júlio Nicolau Curtis FAU - UniRitter
Jornal Correio do Povo de 10 agosto 1971, p.15.
TRINDADE, Jaelson Bitran. Tropeiros. São Paulo, Editoração Publicações e Comunicações Ltda. 1992.
LALLEMANT, Robert Avé. A Viagem pela província do RS- 1858. Itatiaia, São Paulo: Ed.da Universidade de São Paulo, 1980.

sexta-feira, 19 de março de 2010

A Família Kruel em Santa Maria


Os artigos veiculados neste blog podem ser utilizados pelos interessados, desde que citada a fonte: MOUSQUER, Zélce Darclé. (Inclua o título e data da postagem) in http://www.familia-kruel.com.br, nos termos da Lei nº 9.610/98.

A FAMÍLIA KRUEL EM SANTA MARIA

Astrogildo de Azevedo por ocasião do equivocado Centenário da Fundação de Santa Maria de 1914, escreve: O início da imigração alemã em Santa Maria remonta pouco mais ou menos ao ano de 1830. É certo que, antes d’isso, existiram alemães aqui como em toda parte,mas sua influencia foi sem duvida tranzitoria e apagada, porque a tradição a eles se refere vagamente.
A elevação do Oratório a Capela Curada do Acampamento de Santa Maria da Boca do Monte ocorreu em 1812, mas como o Livro do Tombo do Curato foi aberto pelo primeiro Cura em 1814, isto gerou o equívoco das Comemorações de 1914.

Santa Maria, nesta época, uma incipiente povoação originária de um acampamento de delimitação de fronteiras, atraiu os colonos em busca de tranqüilidade para o trabalho. A povoação crescia, recebendo soldados, colonos, e servindo de parada obrigatória para aqueles que se dirigiam para as Missões ou fronteira Oeste.

O viajante Arsène Isabelle, (ISABELLE,1983,p.38) passou pela localidade em 1834 e escreveu: Observa-se muita atividade nesta população do centro da província; Santa Maria é o mercado comercial dos lugarejos dos arredores, compreendidos entre Cachoeira, Caçapava, Alegrete e São Borja [...].

Cardoso, 1978, p. 16 nos diz que

...a partir de 1835, quando o seu comércio ( da povoação de Santa Maria) e os negócios pastoris se desenvolviam prodigiosamente. O Curato contava com mais de cem estabelecimentos pastoris entre estâncias, grandes e pequenas, nas quais abundavam o gado vacum e o cavalar. Em 1835 a sedo do Curato possuía mais de 160 moradias e quase duzentos prédios espalhados por toda a circunscrição, que se orgulhava de contar com quase 2.300 habitantes.

Em Brenner, 1995, p.77, lemos: Muitos compatriotas desses pioneiros (refere-se aos Niederauer, Hoffmeister, Cassel, Weinmann, Winck, Hoehr, Becker, Holzbach...) afluíram, então, para a povoação, agora sede de Freguesia, principalmente após o reinício, em fins de 1844, da corrente imigratória alemã no Brasil, interrompida em 1830. Os novos migrantes procediam, principalmente, da Colônia Alemã de São Leopoldo.

Hoffmeister Filho, 1980, p.47, cita Carl/Carlos Kruel entre os imigrantes que se transferem para Santa Maria entre 1835 e 1836, juntamente com Matheus Hoffmeister, João Niederauer, Gabriel Haeffner, e outros.

João Belém, 1933, p. 96, relaciona Carlos Kruel entre os que passaram a residir na localidade de Santa Maria entre 1846 a 1858. Escreve, também, que ao explodir a Revolução Farroupilha já comerciavam, na sede do curato, dois alemães – João Appel e Gabriel Haeffner. Outros vieram durante a revolução até final de 1845. (BELEM, 1933, p.80).

Ignoramos o ano em que Carlos Kruel e Juliana Bier migram para o centro da província, porém o fato de nenhum filho do imigrante ter nascido em Santa Maria, e encontrarmos nesta cidade, registros de batismo de seus netos a partir de 1846, parece indicar que os Kruel abandonam a região colonial de São Leopoldo e dirigem-se para a Freguesia de Santa Maria da Boca do Monte, após a venda de suas terras em Dois Irmãos (1841).

Talvez a família tenha permanecido por algum tempo na região de São Leopoldo após se desfazer das terras, encaminhado-se para Santa Maria em torno de 1845/1846, período do grande afluxo de alemães na região.

Conseguimos relacionar os que de 1846-1858 domiciliaram-se na localidade, concorrendo também para o seu progresso material e desenvolvimento social. Foram: Jacob Luiz Laydner, Jorge Noethen, Carlos Schultz (primeiro pintor que teve Santa Maria), Carlos Kruel, Felipe Fucks, Carlos Brenner, Conrado Zimmermann, Gaspar Laypold, Francisco Schmitt, José Matheus Alles, Felipe Fleck, João Kittmer, Godfried Lindemeyer, Alexandre Hagenstorn, Felipe Carlos Alt, André Weber, Felipe Kuemmel, Pedro Licht, João Henrique Druck, Pedro Stock, Jacob Lied, Jacob Carlos Becker, Miguel Lau, Guilherme Gauer, Jorge Heim, Adolfo Homrich, João Graef, Guilherme Gaiger, João Feldmann, Adolfo Kemery, Adão Noschang, Henrique Klapper, Jens Jensen, Miguel Kroeff, Jacob Albrecht, Agostinho Ribbrock, Conrado Scherer, José Feliciano Hochmueller e João Frederico Mergener. (BELÉM, 1933, p. 96).

Os Kruel encontram uma Santa Maria recuperando-se do decênio da luta farroupilha, onde campos despovoados, a povoação deserta de homens jovens, o comércio fraco, geravam ansiedade e expectativa.

Nas palavras de Belém, 1933, p. 84.
Finalmente voltam à casa todos os que não tombaram na cruenta campanha. Os campos começam a ser povoados de novo e as terras arroteadas. O comércio respira completamente desafogado, as indústrias retomam o caminho interrompido. A faina das fazendas recomeça com vigor, procurando cada qual resarcir seus prejuízoa materiais à custa de esforços inauditos. Uns, orgulhosos de seus feitos, narram os episódios de que foram parte; as mulheres choram seus entes queridos mortos na luta fratricida; e outros lamentam o tempo esperdiçado na brutalidade da guerra civil. A alegria volta agora apagando as dissenções.

A povoação tivera início com a vinda das Missões, da Comissão portuguesa Demarcadora de Limites, que instalou seu acampamento, em torno de 1797, na sesmaria do Padre Ambrósio José de Freitas, no despovoado local denominado Rincão de Santa Maria. Esta comissão tinha a finalidade de realizar a demarcação dos limites entre as possessões portuguesas e espanholas, decorrentes do Tratado de Santo Ildefonso, de 1777. Quando a Comissão retira-se para Porto Alegre, em 1801, deixou o povoado com habitações, alguns habitantes e um pequeno oratório.

Os novos moradores, já encontraram ali estabelecidos desde o início de 1829, militares alemães do 28º Batalhão de Caçadores, que vieram do centro do país para combeter na Cisplatina. Com o fim da guerra, em 1828, o batalhão se dispersou, mas a grande maioria do contingente permaneceu em Santa Maria. Uma já instalada população alemã, com certeza, estimulou a vinda de colonos, comerciantes e artesãos para o curato.

Inicialmente, o povoado de Santa Maria era o 4º distrito da Vila Nova de São João da Cachoeira. Em 1837, durante a Revolução Farroupilha, foi criada a Freguesia de Santa Maria da Boca do Monte, episódio da maior importância, pois Santa Maria deixava de ter uma Capela Curada, subordinada a Matriz de Cachoeira, para também ser Matriz.

"...em 1846, foi definitivamente organizada a qualificação eleitoral, pela qual se constatou que Santa Maria possuía 209 eleitores, um elevado e muito significativo número." (CARDOSO, 1978, p. 26).

A freguesia foi elevada à condição de vila em 1857 e em 1858 foi instalado o novo Município e a sua Câmara de Vereadores. Finalmente, em 1876, a Vila de Santa Maria foi elevada à categoria de cidade.
Neste período, a principal fonte de riqueza do município era proveniente do trabalho nos campos, o comércio e a área da indústria, prosperavam.
Carl Ludwig Wilhelm Kruel (Carlos Kruel) faleceu em Santa Maria, em 5 setembro 1871,vivera 81 anos. Sua esposa, Juliana Bier, falecera um ano antes, no dia 21 agosto 1870.

Para fins de melhor compreensão, passo a referir-me ao imigrante Carl Ludwig Wilhelm Kruel como CARLOS KRUEL, nome adotado no Brasil.

Em 1864, o imigrante Carlos Kruel, presta depoimento perante o juíz (prestação de contas referente à função de tutor dos netos – filhos de Carlos Kruel Filho) através “de seu intérprete”, alegando desconhecer o “idioma deste país”. Possivelmente, estivesse referindo-se ao filho Christiano Kruel.

Planta da cidade de Santa Maria, assinada pelo agrimensor José Neher, datada de 1902. Disponível em MARCHIORI e NOAL, 1997, p. 84. Note-se a indicação da residência de Maria Kruel.

Residência da Família Kruel em Santa Maria/RS.

De acordo com a planta de José Nehrer (acima citada), o casarão no centro da foto, junto à Praça Saldanha Marinho, pertenceu à família Kruel, tendo sido esta planta a única fonte em que está baseada a informação encontrada em MARCHIORI e NOAL, de que o casarão pertenceu aos Kruel.

Hoje, temos ali a Rua Roque Callage. Os prédios que estão à sua direita, deram lugar ao Fórum e ao Banco Pelotense ( atualmente o Banrisul). No prédio à esquerda , instalou-se, mais tarde, o jornal “A Razão. A Fotografia faz parte do acervo do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul.

Segundo pesquisa no Ofício de Registro de Imóveis, em Santa Maria, realizadas por José Antonio Brenner, o casarão na Praça Saldanha Marinho foi transmitido por Conceição Villa Machado a Francisco Dutra Villa, em 24 de setembro de 1924. Como não há registro anterior, não temos como confirmar se, alguma vez, antes disso, o imóvel pertenceu à família de Carlos Kruel.

Mais tarde, a parte maior da casa pertenceu a Ricardo Rabenschlag, e a parte menor a Adolfo Otto Brinckmann. A viúva desse último, Maria das Dores Brinckmann e outros proprietários venderam à Prefeitura Municipal, que ali abriu a Rua Roque Callage, no final dos anos 1930.

Nessa época, a propriedade estava em dois terrenos pertencentes à família Cauduro, que a venderam à Prefeitura Municipal que a repassou ao Estado, para a construção do edifício do Fórum, inaugurado em 3 de julho de 1944.
Os dados do Ofício de Registro de Imóveis, em Santa Maria, foram pesquisados até 22.1.2010 por José Antonio Brenner.
Praça Saldanha Marinho, onde vemos a suposta casa da família Kruel.

Fotografia de 1905, tomada da Igreja Matriz, em construção. Os prédios da face sul foram demolidos e em seu lugar foram construídos, da esquerda para a direita, o Banco Pelotense (atualmente o Banrisul), o Fórum e a abertura da Rua Roque Callage. Note-se, à direita, a Rua do Acampamento. Disponível em MARCHIORI e NOAL, 1997, p. 87.

Entorno da Praça Saldanha Marinho. Vê-se na lateral direita (esquina) a residência de João José Pinto que a vendeu ao Banco Pelotense, para ali construir seu edifício, inaugurado em dezembro de 1923. Ao fundo, à esquerda, vemos o Theatro Treze de Maio, na data da foto (1913). Em agosto desse ano,o imóvel passou à propriedade da Intendência Municipal,que comprou as ações da Sociedade Theatral Treze de Maio e alugou o préio ao Diário do Interior. Em 1995, o Theatro Treze de Maio, após tres anos de reconstrução foi inaugurado. Do antigo prédio, só foram conservadas as paredes externas. Mais tarde, entre estes dois prédios, teremos o Cine Teatro Independência . Acervo do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul.

Informações enviadas por José Antonio Brenner, pesquisador Santa -Mariense.

Fontes:

Revista Comemorativa do Primeiro Centenário da Fundação da Cidade de Santa Maria. Arquivo Histórico Beno Mentz – UFRGS.
ISABELLE, Arsène. Viagem ao Rio Grande do Sul: 1833-1834. Traduzido por Dante de Laytano. Caxias do Sul: Martins Livreiro. 1983.
CARDOSO, Edmundo. A História da Comarca de Santa Maria. 1 ed. Santa Maria: Livraria Pallotti, 1978.
BRENNER, José Antonio. A Saga dos Niederauer. Santa Maria: Editora da UFSM,1995.
HOFMEISTER FILHO, Carlos Bento. O pote de geléia. Porto Alegre:Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, 1980.
BELÉM, João. História do município de Santa Maria. Porto Alegre: Livraria Selbac, 1933
UNIJUI/RS, Museu Antropológico Diretor Pestana/Divisão de documentação/UNIJUI/RS - MADP, Genealogia manuscrita - Padre Pio Busanello.
MARCHIORI, José Newton Cardoso, NOAL Fº, Valter Antonio (Org.). Santa Maria – Relatos e impressões de viagens. Santa Maria: Ed. da UFSM, 1997.

A Família Kruel na região colonial de São Leopoldo


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A FAMÍLIA KRUEL NA REGIÃO COLONIAL DE SÃO LEOPOLDO

São Leopoldo foi o primeiro e o mais importante núcleo de colonização alemã, iniciada em 1824, com a primeira leva de imigrantes alemães no Rio Grande do Sul.
A família Kruel não é citada pelo Pe. Amstad, entre aquelas que se localizaram em Dois Irmão ou São José do Hortêncio. Porém, a localização do documento relatado a seguir, nos dá a certeza de que os Kruel foram, realmente, encaminhados para a Picada Dois Irmãos.
Trata-se da venda de uma colônia de terras na Picada Dois Irmãos, em 22/12/1841, inscrita sob o nº 85, p.70v no Primeiro Livro do Juízo de Paz de São Leopoldo “...o casal Kruel vende sua colonia número 24, cita na picada de Dois Hermãos, fazendo frente no lado esquerdo da mesma picada e fundo ao sertão adentro, sendo os fundos mil (e) seiscentas braças e de frente cem braças, por 600$000 réis”. A escritura de venda outorgada à Jacob Sander, teve como testemunhas Carlos Salzmann e João Altmeyer. (HUNSCHE, 1979, p. 84 e 231)

Na época da imigração, as medidas de superfície usadas na medição das terras, eram o palmo (para medidas menores) e a braça (usada para medidas maiores).

Dreher, corrobora com esta informação, ao citar o imigrante Kruel como colono na Picada Dois Irmãos, no ano de 1829, mesmo ano em que é registrado o nascimento de seu filho Christiano na referida Picada, atual município de Dois Irmãos. Seus filhos, João Ernesto nascido em 1831(região colonial de São Leopoldo) e Catharina, a filha caçula do casal de imigrantes, nascida em 1835 e registrada em Bom Jardim/Ivoti, são também indicativos de que a família estava assentada na região colonial de São Leopoldo, mais especificamente na Picada Dois Irmãos.

A Picada Dois Irmãos, também chamada Baumscheiss, Baumchneitz , Baum Pikade ou Sankt Michael der beiden Bruder (São Miguel de Dois Irmãos).

Estes dados nos permitem, portanto, ter certeza de que o casal de imigrantes Kruel, ao entrar no RS, provavelmente, devido à indisponibilidade de terras na colônia alemã de São Leopoldo, foi encaminhado para a Picada Dois Irmãos, onde recebeu um lote de terras, ou uma colônia, o que acima foi relatado (também chamado de “ data” ou “prazo”).

A maioria dos 5000 colonos alemães angariados por Schaeffer e chegados ao Rio Grande do Sul de 1824 até a Lei do Orçamento de 15/12/1830 (que suspendeu todos os recursos financeiros à colonização estrangeira), foi localizada na colônia alemã de São Leopoldo, isto é, primeiramente (1824/1825) na antiga Feitoria ou nas imediações (Estância Velha e Lomba Grande) e, a partir de 1826 a 1830, em Sapucaia, Portão, Campo Bom, Costa da Serra (Hamburgo Velho), Bom Jardim (Ivoti), Linha Quatorze, Picada Quarenta e Oito, Linha Hortencio e Dois Irmãos (HUNSCHE, 1979, p.14).
Fontes:

AMSTADT, Theodor. Cem anos de Gemanidade no Rio Grande do Sul - 1824-1924. Tradução de Arthur Blasio Rambo.São Leopoldo: Ed. Unisinos,1999.
DREHER, Martin Norberto. Igreja e Germanidade. São Leopoldo: Sinodal,1984..
HUNSCHE, Carlos Henrique. Primórdios da vida judicial de São Leopoldo. O primeiro livro do Juízo de Paz, 1832-1845. São Leopoldo: EST, 1979.

sábado, 6 de março de 2010

A chegada no Rio de Janeiro e a viagem para São Leopoldo


Os artigos veiculados neste blog podem ser utilizados pelos interessados, desde que citada a fonte: MOUSQUER, Zélce Darclé. (Inclua o título e data da postagem) in http://www.familia-kruel.com.br, nos termos da Lei nº 9.610/98.

A CHEGADA NO RIO DE JANEIRO E A VIAGEM PARA SÃO LEOPOLDO

Os imigrantes desembarcaram no Rio de Janeiro, na 2ª metade de 1827. Enquanto aguardavam a viagem para o sul, ou a unidade militar para onde seriam destinados, no caso dos soldados, os imigrantes ficavam alojados em Niterói, RJ nos “Galpões da Praia Grande” ou “Armação”, (armazéns, depósitos utilizados, anteriormente, na industrialização do pescado - baleias), e que passaram a abrigar, precariamente, os colonos alemães durante algumas semanas, atendendo as normas do Serviço de Imigração do Império, o que incluía a inspeção pela Comissão de Saúde e pelas autoridades da imigração. A recepção e transferência dos colonos para a “Armação” eram realizadas pelo Inspetor da Colonização Estrangeira, Monsenhor Miranda. Após o cumprimento das formalidades, eram embarcados em navios costeiros, rumando para Porto Alegre.

A viagem para São Leopoldo se dava em lanchões toldados. A data de desembarque na Colônia alemã de São Leopoldo é desconhecida, porém, Hillebrand aponta como desembarcados em 16 dezembro 1827 alguns colonos que, de acordo com os registros do Padre Amstad em seu relato sobre a imigração alemã no Rio Grande do Sul, foram passageiros do Fliegender Adler.

Do Rio de Janeiro até Porto Alegre, os Kruel viajaram no Bergantim “Conceição Imperador” (tinha como mestre José Ricardo da Silva e o frete estipulado em 12$000 por pessoa), navio de apenas dois mastros. A viagem até Porto Alegre, que durava em torno de 3 semanas, teve início em 12 novembro 1827 e seu término aconteceu antes de 16 de dezembro do mesmo ano.Os barcos chegavam a Rio Grande e depois, pela Lagoa dos Patos e Guaíba ancoravam em Porto Alegre.

As viagens para Porto Alegre eram efetuadas em bergantins, sumacas e escunas de apenas 2 mastros. Eram navios costeiros, contratados pelo governo Central. Na mesma data partiu do Rio de Janeiro em direção ao Rio Grande do Sul, o Brigue-escuna “Dido” transportando 49 famílias e 19 passageiros avulsos. Estes dois costeiros transportaram um total de 559 colonos e constituíram a leva VII, a mais numerosa de todas as que foram registradas em São Leopoldo, entre 1824 e 1830, sem considerar os que não embarcaram ou faleceram antes da partida.

Abaixo, o documento que informa o barco de navegação costeira que transportou a família Kruel até Porto Alegre, o “Conceição Imperador”. São os “Avisos do governo”, ofício emitido no Rio de Janeiro em 24 de outubro de 1827, pelo Visconde de São Leopoldo, Secretário dos Negócios do Império e dirigido ao Presidente da Província, Salvador José Maciel, para que este expeça as ordens necessárias ao desembarque e recepção aos colonos alemães em Porto Alegre, bem como o pagamento do respectivo frete. O ofício veio acompanhado da relação de passageiros a ser apresentada pelo capitão e assinada pelo Monsenhor Miranda, inspetor da colonização estrangeira, relação esta da qual faz parte a família Kruel.

Desembarcaram em Porto Alegre, 51 famílias e 17 imigrantes avulsos. Totalizando 264 colonos, entre adultos e crianças. Os Kruel constam na relação de passageiros (7 pessoas).

Ofício que notifica o desembarque dos imigrantes alemães

Ilmo e Exmo Sr.

Vossa Magestade, o Imperador, há por bem ordenar que V.Exa, logo que chegar a esse porto, o Bergantim Conceição Imperador, que desta Corte se dirige à cidade de Porto Alegre, expeça as ordens necessárias não só para o desembarque e recepção dos colonos alemães, que transporta constantes da relação, que lhe apresentar o Capitão da dita Embarcação, e assignada por Monsenhor Miranda, ou pela pessoa, a quem elle der em missão para esse fim, mas também para o pagamento dos respectivos fretes, na conformidade do contracto celebrado entre o dito Monsenhor e o Capitão da mesma Embarcação. O que participo a V. Exa. para sua intelligencia e execução.
Deos guarde a V. Exa. Palácio do Rio de Janeiro em 24 de outubro de 1827.

Visconde de S. Leopoldo


Relação dos Colonos Alemaens que embarcão a bordo do Bergantin - Conceição Imperador - com destino a Porto Alegre, a entregar ao Ilmº Exmº Sr.Presidente do Governo da Província, na conformidade das Ordens de Sua Magestade o Imperador.

A família Kruel entra na Província gaúcha, no período da guerra do Brasil com a Argentina, pela posse da Banda Oriental (Uruguai). Em 1828, o Império Brasileiro assina o tratado de paz, renunciando à Província Cisplatina e reconhecendo a Província do Uruguai como República autônoma.
Fontes:
Arquivo Histórico do RS
AMSTADT, Theodor. Cem anos de Gemanidade no Rio Grande do Sul - 1824-1924. Tradução de Arthur Blasio Rambo.São Leopoldo: Ed. Unisinos,1999.
HUNSCHE, Carlos H. e ASTOLFI, Maria. O Quadriênio 1827-1830 da Imigração e Colonização alemã no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora G e W, 2004.

A partida


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A PARTIDA


O casal Carl Ludwig W. Kruel, 37 anos e Charlotta Juliana Bier 35 anos, partiram com seus 5 filhos da cidade de OBERSTEIN, embarcando, no porto de Bremem ou Hamburgo, passando por Amsterdan, onde embarcaram mais dois emigrantes.
As dificuldades já tinham início na demorada viagem por terra, levando seus pertences, até alcançarem o porto de embarque. Muitas vezes, a decisão de emigrar implicava na necessidade de leilor em praça pública todos os seus animais e pertences.
Nesta época, as viagens em navios a vapor, duravam em torno de 3 meses, sendo a travessia do Atlântico efetuada em navios de 3 mastros (galeras).
De acordo com Hunsche, deste embarque foi apenas encontrado o contrato de afretamento assinado por Schaeffer no porto de Bremen. Foi o 23º grupo de emigrantes embarcados para o Brasil.

Em Hunsche, 2004, p.151 [...] verificamos a inexistência de dados substanciais sobre os veleiros que transportaram os componentes da leva VII (1827), a mais numerosa, não só do nosso quadriênio, mas de todo o primeiro período da imigração alemã (1824 – 1830) que, em 16 de dezembro de 1827, enriqueceu a Colonia de São Leopodo com 559 colonos.

Hunsche aponta duas possibilidades para o navio que os trouxe para o Brasil. E sugere que a leva de colonos foi repartida entre estes dois veleiros.

1. Veleiro Epaminondas que partiu de Amsterdã em 7 julho/1827 e ancorou no Rio de janeiro em 28 setembro 1827, trazendo mais ou menos 250 passageiros.

2. Veleiro Fliegender Adler (Águia Voadora), pouco se sabe sobre este transatlântico que de tão moroso, recebeu dos imigrantes o apelido jocoso de “Kriechende Schnecke” ( Lesma Rastejante), que zarpou do porto de Bremen nos últimos dias de dezembro de 1826 ou início de janeiro 1827, com aproximadamente 250 passageiros. É desconhecida a data em que aportou no Rio de Janeiro, assim como sua lista de passageiros.

Conforme Amstad, alguns dos colonos registrados por Hillebrand, (diretor da Colônia de São Leopoldo) como chegados a São Leopoldo em 16 dezembro 1827, teriam sido passageiros do Fliegender Adler e teriam viajado para o sul, em duas escunas: Conceição Imperador e Dido. Como sabemos que estes dois costeiros partiram do Rio de Janeiro em 12 novembro 1827, podemos supor, portanto, que o Águia Voadora aportou no Rio de Janeiro, antes desta data. Tendo sido, ao que tudo indica, uma longa viagem.

Ainda em Amstad, 2005, p.72-73, seriam 18 as famílias vindas no Fliegender Adler, sendo que quatro destas famílias se localizaram em Dois Irmãos e quatorze em São José do Hortênsio. Já Hillebrand, registra estas quatro famílias como tendo chegado antes de 16 dezembro 1827 e uma delas, teria chegado posteriormente.

O que se pode dizer, é que as famílias registradas por Amstad, certamente representam apenas uma parte dos imigrantes que entraram no Brasil no veleiro Fliegender Adler, possivelmente, outras famílias, evangélicas, tenham feita a travessia neste mesmo veleiro e não tenham sido listadas por Amstad.